Jeferson Gouveia – Um músico da quebrada

Jeferson Gouveia foi um dos artistas a se apresentar no evento Cabana Solidária, uma live realizada no dia 08/05 com os artistas da nossa comunidade.
Jeferson encantou os expectadores com sua apresentação de músicas autorais e outras interpretações. Conheça mais sobre o artista na entrevista que ele deu para nós do Conecta Cabana.

1 – Você iniciou seu show no Cabana Solidária com a Música Negro Drama do Racionais Mc’s em voz e violão que contagiou todo o público, em sua caminhada qual a influência e importância do Racionais Mc’s


Bom, acho que Racionais’Mcs são influência obrigatória de qualquer artista de periferia no Brasil. O grupo mais importante de RAP que temos é também, ao meu ver, um excelente ponto de partida para que se possa conhecer melhor um pouco da alma brasileira. Essa que é urbana, que pulsa sob sol na cidade caótica em busca pão, que é real, com problemas reais, mas que não deixa de ter fé e poesia seja com samba, com RAP, funk ou com a própria existência, na forma que vive. A identificação com as letras, com todo o cenário musical e estético que eles propõem me fez querer cantar e é natural pra mim. Eu sempre quis fazer uma versão na guitarra deles pelo valor que acho que eles têm e por ser fã irremediável do grupo.

2- Quando você descobriu seu talento e decidiu realizar uma carreira como músico?


Eu descobri alguma pré-disposição pra música na infância. Acho que por conta de viver cercado por música, principalmente de rádio, popular, adquiri uma sensibilidade para ouvir e entoar essas canções. De moda de viola a MPB. Quando pedi a minha mãe um violão, e ela enfim pôde me presentear com um, já usado, é que consegui aprimorar meu talento e depurar meu trabalho autoral.

3- Você chegou a apresentar canções autorais, como é para você o processo de composição, aonde busca inspiração?


Já faz um tempo que componho bem pouco. Ultimamente estou em busca de produzir o que já compus. Tenho a impressão de que a composição pra mim vem em ciclos criativos, como se precisasse me alimentar de vida, de vivência, pra daí ter sobre o que criar. Geralmente não me apego a fórmulas pra fazer as canções, é na real um grande mosaico de possibilidades, um quadro de colagens onde me solto livre. Uma conversa no metrô, um assunto banal na TV, ou qualquer pessoa por perto pode ser gatilho pra meu fazer artístico. Espero que volte logo a compor. Ultimamente tô um pouco como Clarice Lispector. Uma vez vi uma entrevista dela, acho que a única, em que ela diz que quando não está escrevendo, produzindo, se sente morta. Acho que é bem isso que sinto quando não tô compondo, faço porque, antes de tudo, preciso fazer. Quero conseguir entrar muitas vezes nesse lugar.

4- Com as casas de shows fechadas por causa da pandemia, os artistas encontraram nas plataformas digitais a única forma de estar perto do público e, claro, ganhar o pão de cada dia. Logo surgiram novos desafios, como caprichar na identidade visual e no conceito das redes sociais. Estar presente no Instagram e no YouTube, por exemplo, é imprescindível para os artistas independentes. Como você tem se preparado para esse novo momento?


O mercado musical sempre teve essa maleabilidade e muitas turbulências, mas o cenário que se impõe hoje é desolador. Com as dificuldades financeiras, agravadas pela pandemia, vejo artistas talentosos já se dedicando a outras atividades não relacionadas à música. A gente vive um período de extrema fragilidade na indústria cultural como um todo e o desafio maior é fazer as pessoas entenderem a importância e relevância da cultura nas nossas vidas, entender que além de gerar sustento pra muitas famílias a música ajuda a ativar economias locais, pode ser integrada a outras áreas como culinária e eventos esportivos, contribuir para estudos psicoterapêuticos, etc… O cenário está cada vez mais exigente e requer muita resiliência. O mais importante nesse momento e manter a conexão com sua galera e fortalecer suas capacidades artísticas. O artista de periferia se encontra muito fragilizado agora, mas vejo também que muitos se reinventam e acham possibilidades nesse labirinto todo. Eu tenho estudado de forma independente e pretendo lançar músicas feitas em casa pra meu público assim que tiver mais conhecimento sobre toda a cadeia de produção musical.

5- Você tem composto durante esse período de Pandemia? Quais as novidades para o próximo período?


Acho que respondi essa pergunta na minha primeira resposta, mas não tenho composto muito. As coisas que acontecem no mundo e na minha vida pessoal influenciam muito na minha capacidade de aliteração, na poética, na criação. Tenho preferido me dedicar a estudar, produzir, arranjar e mixar. Mas pretendo sim lançar coisas novas. Meu grupo musical, formado por mim e outros compositores incríveis, também vai lançar um álbum com oito faixas inéditas ainda esse ano.

6- Fale um pouquinho sobre o Poeta Mineiro Vander Lee


Eu conheci o trabalho do Vander Lee por acaso. Trabalhei no shopping Oiapoque e lá ouvi pela primeira vez num DVD pirata. Foi identificação imediata. Um artista preto, de origens parecidas com a minha contando sobre coisas tão ricas, sutis, delicadas e com uma musicalidade que me soava, não sei explicar, muito mineira. Enfim, só se pode ter Vander Lee nele próprio. Um artista de muita relevância e personalidade.

7- Lona, canção autoral qual a mensagem você quis passar com essa canção?


Em “Lona” quis expressar algumas angústias, fazendo esse paralelo com o mundo do circo. Não há muito que se dizer dela. Ela é meio que autoexplicativa e, ao meu entendimento, explicar as canções não é muito bom. Gosto e valido a descoberta e interpretação de cada um ao ouvir.

8- O que você diria para as pessoas de nossa comunidade que também sonham em serem músicos?


Eu diria para lutarem pelos seus sonhos sem perder a vontade de estabelecer novos desafios pra si próprios. Para romper com os dogmas que nos aprisionam e estudar o máximo que puder. “Dar tudo de si no mínimo que fazes”. E procurar se agrupar e colaborar com outros artistas que se você identifica, a força do coletivo é muito maior do que caminhar sozinho.

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