Intolerância religiosa e o Racismo religioso no Brasil

Por: Ródinei Páscoa Amélio e Paulo Vinícius Faria Pereira*

Olá, queridas e queridos leitores!

A diversidade humana e cultural é mesmo fascinante, não é mesmo? Algo a ser celebrado. Respeitar as diferenças é muito importante para que nós possamos ter relações humanas saudáveis com as pessoas de outras religiões. Porém, existem práticas que impossibilitam essas relações e promovem a violência. Por isso, este texto vem tratar sobre um assunto que infelizmente está presente em nossa vida cotidiana, a intolerância religiosa. 

O ideal seria que todas as pessoas pudessem conviver de forma respeitosa umas com as outras mesmo quando elas manifestassem diferentes crenças em religiões distintas. Entretanto, nem sempre as pessoas respeitam as religiões umas das outras, o que gera casos de violência verbal, tortura psicológica, agressões físicas, preconceitos, discriminações, crimes, dor e sofrimento. 

A intolerância religiosa é a prática de não aceitar e respeitar a religião de outras pessoas. Assim, um indivíduo, praticante de qualquer religião, ao não aceitar outra religião que é diferente da sua, está praticando a intolerância religiosa. As formas de intolerância religiosa são: a violência verbal, a violência simbólica e até a violência física. Sua prática está, geralmente, associada ao fundamentalismo religioso.  

Mas, o que é o fundamentalismo religioso afinal? 

O fundamentalismo religioso é caracterizado por uma prática religiosa por meio da qual é realizada uma leitura ao pé da letra sobre as escrituras sagradas (ao contrário de uma leitura crítica delas); há, também, o forte radicalismo, moralismo e conservadorismo que fazem com que as pessoas adeptas a essa religiões sustentem atitudes ignorantes de aversão e de ódio em relação às pessoas de outras religiões (diferentemente de uma atitude mais liberal nos costumes, aberta, amorosa e fraterna – capaz de abrir o diálogo inter-religioso). Por isso, se torna necessário falarmos um pouco sobre a intolerância religiosa.

De todas as religiões no Brasil, as que mais sofrem com os ataques de pessoas religiosas fundamentalistas são as de matriz africana, isto é, as do candomblé e da umbanda, principalmente. Esse tipo de intolerância praticada contra as religiões de matriz africana se deve também ao racismo religioso. Essa expressão está relacionada ao fato de que essas religiões são perseguidas por serem diferentes da religião hegemônica (da maioria), ou seja, cristã, e também por estar relacionada à Africa e ao povo negro. Culturalmente, no Brasil e em todo o mundo, as pessoas foram socializadas a tratarem tudo o que vem do povo negro como algo ruim, como por exemplo, a arte, a música, a história e até mesmo a religião. Esse fenômeno de tratar a cultura do outro como inferior se deve ao etnocentrismo. Grande parte destas visões etnocêntricas também são eurocêntricas. Assim, vemos que a população afro-brasileira diante das várias violências que sofrem no dia a dia devido ao racismo, também sofrem a violência simbólica – quando a cultura africana é tratada como inferior (etnocentrismo) – e, quando as religiões de matriz africana são perseguidas (racismo religioso). 

Ei! Mas não vivemos em um Estado Laico? As pessoas não tem o direito e a liberdade de escolherem a melhor religião para elas? Sim. Porém, existem vários casos de maus tratos e de violência já registrados, praticados por cristãos e cristãs evangélicas(os) e/ou pentecostais contra pessoas de religiões de matriz africana. Entre estes casos, apedrejamentos, socos, xingamentos, discriminações, ridicularizações, estupro, e, até mesmo, a destruição dos locais de culto das religiões de matriz africana (Casas de Candomblé, Casas de Umbanda, Terreiros de Candomblé, Terreiros de Umbanda) com fogo e com tiros de revolver já ocorreram. Ora, mas se essas violências são crimes, porque elas continuam existindo? 

A sociologia possui algumas respostas para este fenômeno. Uma delas é que cada seguimento religioso fundamentalista geralmente se pensa como o único capaz de revelar a verdade ao mundo, sobretudo, o que é certo e errado por meio de um tipo de doutrina rígida, severa, fechada em si mesma. O fundamentalismo cristão, dentro da sua cosmovisão (maneira subjetiva de ver e entender o mundo), por exemplo, inferioriza as religiões de matriz africana a partir de um jogo de demonizações, como coisas do diabo, erradas, pecaminosas, de gente ruim. Entretanto, estes ataques originam-se em percepções e pensamentos equivocados, destoantes das práticas, vivências e cosmologia própria dos participantes/fiéis das religiões de matriz africana. 

E isto é muito fácil de se comprovar. Se você perguntar para várias autoridades religiosas das religiões de matriz africana (Yalorixá, Zeladora, também conhecida como Mãe de Santo, ou Babalorixá, Zelador, também conhecido como Pai de Santo) qual é o sentido do seu culto e de sua fé, ela/ele lhe dirá que cultiva a sua ancestralidade africana, o poder da natureza para a manutenção da vida (sol, chuva, terra, vento, mar, rios, lagos, florestas, etc.), suas divindades (Orixás, Inquices, Voduns); e valores humanos como o amor, a paz, a caridade, e, também Deus (Olorum, Zambi ou Mawu), ou seja, celebra a vida.

Atualmente, os grupos cristãos fundamentalistas tem se posicionado afirmando que sofrem de “cristofobia” (perseguição e ódio pelo fato de serem cristãos). Precisamos entender que em um país onde a maioria da população se manifesta como pertencente às religiões cristãs; onde há pessoas que ocupam vários cargos de liderança e de poder e onde essas pessoas utilizam suas influências para implementar decisões que favorecem um seguimento religioso, então não podemos falar que no Brasil existe “cristofobia”. O que existe é a defesa do Estado Laico, que exige uma postura justa e imparcial em relação a todas as religiões, não favorecendo nenhuma delas e não se utilizando do discurso religioso para legitimar ações políticas e jurídicas tomadas. São exemplos de igrejas fundamentalistas cristãs: Igreja Universal do Reino de Deus; Igreja Pentecostal Deus é Amor; Igreja Pentecostal Assembleia de Deus e outras semelhantes.   

Vale a pena lembrar que o Cristianismo surgiu em um contexto de diversidade religiosa, no Império Romano (pax romana), e que por questões de poder e influência de outras religiões, seus primeiros adeptos foram perseguidos e até mesmo jogados aos leões. Mas o que isso realmente quer dizer? Que quando surgiu, o Cristianismo era uma religião de minorias! Portanto, os cristãos também queriam ser considerados cidadãs/ãos para que também valesse para eles/as a liberdade de culto e não a imposição da religião deles sobre as demais pessoas. Por essas entre outras razões, cabe aos cristãos e às cristãs fundamentalistas estudarem a sua própria história cristã e reconhecerem que o que as outras religiões buscam é o mesmo direito pelo qual eles/elas [cristãs/cristãos], no passado lutaram para conseguir.

Sabemos que quando falamos de intolerância religiosa ou do fundamentalismo religioso no Brasil, não estamos nos referindo a todas as cristãs e cristãos no país, mas a um grupo de pessoas que, por meio das suas ações, acabam dando uma visibilidade negativa para essas religiões. Os muçulmanos também sofrem com a imagem negativa que é divulgada em relação a eles, principalmente após o ataque terrorista contra as torres gêmeas nos EUA em 2001. Por causa de um grupo (xiitas e sunitas), todos os muçulmanos passaram a sofrer intolerância religiosa e acusados de terrorismo em todo o mundo. 

Um dos caminho para a superação da violência religiosa, a intolerância religiosa, é o ecumenismo (diálogo entre todas as igrejas cristãs), um outro é o diálogo inter-religioso (diálogo entre religiões diferentes). Pois, como disse Mahatma Gandhi (02/10/1869 – 30/01/1948) – líder político e Estadista hindu que também foi vítima de intolerância religiosa, assassinado por um fundamentalista hindu contrário aos direitos do povo muçulmano na Índia defendidos por Gandhi: “as religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?”.

Um entre vários casos que chocaram o Brasil: “Mãe perde guarda da filha após jovem participar de ritual do candomblé”.

Situação: Na cidade de Araçatuba, São Paulo, a mãe de uma pré-adolescente de 12 anos perdeu a guarda da filha após a menina participar de uma iniciação ao Candomblé, que envolve, entre outras coisas próprias da iniciação, raspar a cabeça e ficar em retiro espiritual por 21 dias. A avó da menina, que é evangélica, acionou o Conselho Tutelar e a Polícia Civil alegando que sua neta sofrera maus-tratos e abuso sexual. A garotinha teve que se submeter a um exame de corpo de delito. Nenhum tipo de violência foi comprovado pelo IML. A mãe informa que este sempre foi o sonho de sua filha, que nunca a obrigou a nada. Não satisfeita, a avó entrou com uma ação na Promotoria Pública alegando maus-tratos por lesões corporais devido à cabeça raspada da pré-adolescente. A avó ganhou a guarda da neta. Mãe e filha choram pela separação. A mãe informa que suas visitas à filha duram cinco minutos porque a avó não permite mais do que isto. A neta já fugiu de casa porque sua avó a obriga a abandonar os preceitos de sua religião. A menina foi levada de volta pela PM que a encontrou em uma praça. A mãe diz, “estou arrasada”. Sua advogada afirma, “mecanismos institucionais não podem ser usados como instrumento de discriminação”. (Fonte:   MOURA, Rayane. Mãe perde guarda da filha após jovem participar de ritual do candomblé. Uol Notícias. Publicado em: 07 de agosto de 2020. <<https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/08/07/mae-perde-guarda-da-filha-apos-jovem-participar-de-ritual-do-candomble.htm?>&gt;. Acesso: 25 de setembro de 2020).

ALGUNS DEPOIMENTOS SOBRE A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA:

1) “Ouvimos os barulhos. Os telhados do salão sendo apedrejados. É muito triste, doloroso e humilhante. Não estamos fazendo nada de errado, apenas cultuando os nossos deuses. É como se tivéssemos que provar a nossa fé, sendo que isso não é preciso. Estamos aqui para auxiliar o próximo e não para fazer maldade. E na verdade, o único mal que existe é o realizado contra nós”.  – Yalorixá Valeska T’Osumaré. 

2)  “É só cumprir o que Jesus ensinou, que é o amor. Independentemente de sua fé, do sexo, do que outro faz ou pensa, que possamos pensar que devemos amar a todos e respeitá-los, porque isso é bom e agradável diante de Deus. Quando a gente ama a Deus, não tem como a gente olhar para o próximo, para um ser humano que carrega a imagem e semelhança de Deus, e não amar esse próximo”. – Pastor Leonardo Amorim Teixeira. 

Por que existe o racismo religioso? De acordo com a educadora e ativista dos direitos dos povos das religiões de matriz africana, Makota Valdina, o racismo religioso contra as religiões de matriz africana existe “porque tudo o que é do povo negro é desvalorizado, menosprezado, inferiorizado”. Esta frase faz muito sentido, não é mesmo? Porque o racismo presente na nossa sociedade hoje tem suas raízes no período colonial. Naquela época povos africanos inteiros foram escravizados e trazidos à força da África para cá. Aqui, os/as africanos/as e seus/suas descendentes eram consideradas/os pela sociedade branca e cristã como inferiores e sem alma. O mesmo ocorria com as suas tradições e crenças religiosas sempre perseguidas, demonizadas e até mesmo criminalizadas por lei. Você consegue relacionar o racismo religioso de hoje, contra as religiões de matriz africanas com esse período da nossa história do Brasil?”

2) INTOLERÂNCIA RELIGIOSA É CRIME! – De acordo com a comunicação institucional do Senado Federal: “A Constituição declara que é “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” (art. 5º, inc. VI). Já o Código Penal especifica a punição para a violação da liberdade religiosa. Tenha ou não tenha religião, seja uma religião majoritária ou minoritária, discriminação religiosa é crime. Código Penal artigo 208. Conheça o Código Penal: http://bit.ly/1PuiPGg”. 

* Este texto foi escrito pelos autores acima mencionados originalmente para o Plano de Estudos Tutorados 7 da Secretaria de Educação de Minas Gerais, PET 7, publicado no dia primeiro de dezembro de 2020, com finalidade pedagógica dentro do Componente Curricular de Sociologia. Para ser publicado aqui, este texto passou por uma revisão e adaptação. Ambos os autores são professores de Sociologia da SEE/MG.  

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